26/01/2024 às 16h45min - Atualizada em 30/01/2024 às 07h54min

Gritos de ódio nos estádios

Ultras de extrema-direita e a luta contra o racismo no futebol

Gianluca Florezano
Imagem de Clemens Teichmann por Pixabay.


O racismo volta a assombrar a Itália. No dia 20 de janeiro, o jogo entre Udinese e Milan, válido pelo Campeonato Italiano, foi interrompido aos 38 minutos do primeiro tempo. O motivo: torcedores da Udinese insultaram de forma discriminatória o goleiro da equipe de Milão, o francês Mike Maignan. Ambos os times se retiraram de campo, no entanto, cerca de cinco minutos depois, a bola voltou a rolar e, numa partida marcada por várias reviravoltas, o Milan acabou vencendo pelo placar de 3x2.

Casos como este são recorrentes no futebol italiano. Em 2018, o então zagueiro francês do Napoli, Kalidou Koulibaly, no jogo contra a Internazionale (ou Inter de Milão), também sofreu ofensas racistas da torcida adversária. Entretanto, ao contrário do que aconteceu com Maignan, Koulibaly foi expulso por aplaudir ironicamente o árbitro que ignorou os seus apelos para que a partida fosse paralisada.

Em 2019, foi a vez do atacante belga, Romelu Lukaku, que à época defendia as cores da Inter de Milão, ser o alvo dos racistas. Aos 27 minutos do segundo tempo, na disputa contra o Cagliari, ao pegar a bola para bater o pênalti, uma parte da torcida rival começou a fazer gestos de macacos em direção ao atacante belga. Sem deixar se desestabilizar pelo show de horrores que o cercava, Lukaku conseguiu empurrar a bola para o fundo das redes, no entanto, como forma de protesto, não comemorou o gol.

Após o jogo, Lukaku cobrou a Federação Italiana de Futebol e os demais órgãos competentes para combater o racismo dentro dos estádios. Ele recebeu o apoio de figuras políticas importantes e de vários jogadores ao redor do mundo.

Só não recebeu apoio da sua própria torcida, ou melhor dizendo, da Curva Nord, o principal grupo ultra (o equivalente à torcida organizada) da Inter de Milão. Em uma carta endereçada ao jogador, os ultras afirmaram que os torcedores do Cagliari não foram racistas. Sim, isso mesmo. Eles entendiam que os gestos de macacos não passavam de uma maneira encontrada pela torcida adversária para tirar a concentração dele na hora de bater o pênalti. Além disso, disseram também que já fizeram coisa parecida e que continuariam a utilizar este “artifício” contra os rivais.

O racismo, no entanto, não é uma exclusividade das arquibancadas italianas. Na Espanha, fenômeno parecido também acontece. Real Betis, Espanyol, Real Madrid, Atlético de Madrid, dentre outros clubes, têm visto o número de grupos de ultras ligados, de uma maneira ou de outra, à cultura da intolerância aumentarem em seus estádios. Não à toa, desde que pisou os pés no país, o atacante brasileiro, Vinicius Junior, tem sido alvo da fúria dos racistas.

Inclusive, há indícios de que ultras da extrema-direita italiana e espanhola estão fazendo alianças entre si. Porém, muito mais do que fazer alianças, eles se inspiram uns nos outros para levar adiante seus shows de horrores nos estádios europeus.

Em 2023, o auge do ódio a Vini Junior se deu antes da partida contra o Atlético de Madrid pela Copa do Rei. Torcedores “colchoneros” (como são conhecidos os torcedores do Atlético) penduraram, em uma das pontes da capital espanhola, um boneco negro vestido com a camisa do brasileiro, amarrado por uma corda no pescoço, simulando um enforcamento (maneira pela qual vários negros foram assassinados brutalmente durante os tempos de escravidão).

Entretanto, essa não era a primeira vez que um boneco negro era enforcado no mundo do futebol. Em 1996, ultras da equipe italiana do Hellas Verona, para protestar contra a possível contratação do atacante holandês, Maickel Ferrier, que seria então o primeiro negro a defender o time, amarraram uma corda no pescoço de um boneco de pano de cor preta com a camisa do Hellas Verona que trazia a seguinte mensagem: “negro go away” (“negro vai embora”). Para piorar a dramaticidade da cena, os torcedores que seguravam o boneco, pendurado por uma corda na arquibancada, vestiam os típicos trajes do grupo supremacista estadunidense Ku Klux Klan.

A apologia ao racismo e à ideias supremacistas também têm ocorrido em outros países europeus. Em 2020, na Ucrânia, no auge das manifestações antirracistas daquele ano, impulsionadas pela morte do afro-estadunidense George Floyd, torcedores do FC Minaj exibiram uma faixa durante um jogo com os seguintes dizeres: “Free Derek Chauvin” (“libertem Derek Chauvin”) - o policial responsável pela morte de Floyd.

Já na Hungria, também em 2020, ultras do Ferencvaros, no clássico local contra o Újpest, colocaram uma faixa que dizia: “White Lives Matter” (“Vidas Brancas Importam”) - frase comumente utilizada por grupos supremacistas brancos para fazer objeção ao movimento Black Lives Matter.

Por fim, naquele mesmo ano, na Inglaterra, para confrontar as manifestações contra o racismo que aconteciam no país, supremacistas brancos, vestidos com a camisa da seleção inglesa, promoveram um ato em Londres. Posteriormente, manifestantes de extrema-direita e militantes antirracistas entraram em confronto na capital londrina.

Não é apenas na Europa que os racistas costumam dar as caras nos estádios. Na América Latina, principalmente nas competições da Taça Libertadores e Sul-Americana envolvendo algum time brasileiro, casos de discriminações raciais são comuns. O episódio que mais chamou a atenção pública, no entanto, aconteceu no jogo entre Universitário e Corinthians, válido pela Copa Sul-Americana, em 2023, no Peru. Um grupo de torcedores do time peruano, intitulado “Los Nazi”, foram flagrados vestindo camisas com a suástica nazista.

Após a repercussão do episódio envolvendo o goleiro do Milan, voltando para a Itália, a comissão disciplinar da Série A Italiana puniu a Udinese com um jogo com os portões fechados. Em nota, o time de Udine condenou as ações dos torcedores que cometeram os insultos discriminatórios e prometeu identificá-los e, posteriormente, bani-los do estádio. Além disso, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, apoiou publicamente Maignan e defendeu derrota automática para casos de racismo.


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